O JARDIM DO VIZINHO

O JARDIM DO VIZINHO
A insatisfação toma conta;
Os olhos estão sempre a reprovar;
Ora são as pernas, ora os seios,
Nada agrada, sempre existe algo fora do lugar;
Quantas queixas, quantos choros;
Limitam a alegria, que poderia ser borbulhante.
Mas os famosos 2kg a mais, a impedem de gostar de si mesma.
A insegurança toma conta, o que fazer para melhorar?
A imagem refletida no espelho está a denunciar, que não receberá aplausos.
O medo de não ser amada, passa a habitar seu coração.
Tomada pela angústia, entra no perigoso jogo da competição.
Passa a olhar com muita atenção para o jardim do vizinho.
Muitos são os vizinhos, o jardim se torna imenso.
Os olhos correm através das janelas de sua casa, como também, do visor de seu computador, tablet e celular.
O mundo se tornou uma grande aldeia, de fácil acesso e muitas exposições.
O culto à beleza do corpo se propaga.
Fotos das mais diversas e cenários exuberantes se misturam.
As imagens seduzem!!!
Hipnotizada fica a contemplar e comparar.
Constata que neste amplo jardim, as flores são mais belas e viçosas; a grama é mais macia, o verde é mais vibrante e encantador.
Neste vai e vem se perde, entra num círculo vicioso, de mazelas e flagelos.
Só não percebe que a fila anda, ela continua parada,
Voltada para o próprio umbigo. Assim a desperdiçar o viço de sua juventude.
Prisioneira de seu medo, medo de ser trocada;
Medo de não ser admirada, de não ser amada.
O seu maior inimigo chama-se medo
O que representa o jardim do Vizinho?
Ele representa o outro, que na fantasia de nossa personagem, sente-se ameaçada pelo poder e brilho do outro.
Tudo isso é fruto da baixa autoestima, da insegurança, sentimento que permeia o mundo interior de muitas pessoas. 
Por que tanto autoflagelo?
Vamos olhar para nosso jardim com mais atenção e carinho.
Valorizar o que é nosso, cultivar novas plantas, arrancar as ervas daninhas.
Descobrir o brilho das estrelas dançantes, presentes no orvalho que embelezam nossas flores.
Ao nos encantarmos com o nosso jardim, descobriremos que ele é único, ele nos retrata. 
Aprenderemos a nos aceitar, o sentimento de amor e valorização por nós fluirá.
As algemas das inseguranças serão rompidas.
O gozo pela libertação do medo, florescerá
A metamorfose ocorrerá, tornando-nos mais autoconfiantes, certamente a alegria borbulhará.
O Jardim do Vizinho, a magia perderá.
Será apenas, O JARDIM DO VIZINHO.

CLAUDETE DE MORAIS
Doutoranda em Psicologia Clínica
CRP 12/01167

O ENTALADO

Na boca um gosto amargo, na garganta um aperto,
No coração uma dor, nos olhos uma desilusão.
Um contraste, o que era doce, amargo se torna, 
O que era terno, ríspido se apresenta,
O que era prestativo, duro se revela,
O que era encantador perde a magia.
O brilho caiu, um novo ser surgiu.
O novo estava revestido de outras peles;
Ao se despir, se revela, cria impacto.
A dor borbulha, a boca se cala.
Na garganta a queixa entalada, o grito sufocado.
Fala presa, engasgada está e embolada permanecerá.
Por não soltar a palavra, por não gritar;
O ser endurece, o ser adoece.
Em sua sacola, remédios você encontrará.
Para ansiedade, depressão, insônia e dores mil.
O entalado reprime sua angústia e perguntas mil.
No silêncio de sua dor e medo, o entalado fica a fermentar.
Diante de tamanha fermentação, igual ao enlatado vencido ficará.
Degustar o enlatado estragado, em veneno se transformará,
Veneno que penetra nas entranhas do ser.
Veneno que agride ao corpo e engessa as emoções.
Veneno que se espalha e a todos que rodeiam contaminará.
Diante de tanto fermento só tenho a receitar;
Liberar o que está entalado, deixar fluir o reprimido;
Desatar as palavras, deixar escorrer os sentimentos; 
Com as lágrimas, lavar o rosto e a alma.
Extrair a tinta que encobre os sentidos;
Destroçar o gesso que amordaça as emoções;
Triturar as couraças, para o medo enfrentar.
Vomitar o entalado e a liberdade conquistar.
Esvaziar, desacorrentar as mágoas, ressentimentos e dores;
Desgrudar das raivas enferrujadas, se renovar.
Livre do entalado, um novo ser florescerá.
A semente do amor por si próprio germinará.
Autoconfiante, sereno, feliz consigo mesmo ficará.
Um novo caminho, novas posturas, novos desafios.
Cabeça erguida, olhar firme, passos seguros.
No rosto um sorriso vibrante, brilhante por se respeitar.
Claudete de Morais
Doutoranda em Psicologia Clínica
CRP 12/001167