Quem somos?
Estamos em um processo de construção contínua, muitas vezes nos
surpreendemos com nossas ações, entramos em conflitos, não aceitamos o que
percebemos, negamos ou projetamos a dificuldade. O problema não é meu e sim do
outro, como alternativa pode ocorrer uma somatização, portanto adoecemos
fisicamente. O que fazer? O desejo é de mudança, porém a mesma implica em
sairmos da zona de conforto, exige investimento, esforço, porém o mais
importante é responder esta pergunta:
Quem é você? O que você deseja realmente?
Ressaltando a importância do autoconhecimento usarei um aforismo grego,
citada por Sócrates, “Conhece-te a ti mesmo.” Este é o principio de tudo, para
encontramos a satisfação e a alegria em viver, é fundamental este conhecimento,
de quem somos.
Partindo da premissa de Freud, “Não somos apenas o que pensamos ser. Somos
muito mais, somos também o que lembramos e aquilo que nos esquecemos; somos as
palavras que trocamos e os enganos que cometemos; os impulsos a que cedemos,
sem querer”.
Somos tudo isto, desvendar o nosso próprio enigma é fascinante. No processo
terapêutico temos a oportunidade de mergulharmos em nossas contradições, medos,
inseguranças, nas raivas enferrujadas e nos desejos negados, muitas vezes estrangulados.
Comparo este processo ao de renascimento, assim passamos a olhar para o nosso
interior de forma carinhosa e corajosa. Descobrimos que somos muito o discurso
do grande outro, dos desejos da mãe, do pai, de amigos, da sociedade e muito
pouco dos nossos reais desejos.
Lembro então do grande poeta Fernando Pessoa, em um de seus poemas, pontua
“procuro despir-me do que aprendi, esquecer-me do modo de lembrar que me
ensinaram, raspar a tinta que me pintaram os sentidos e desencaixotar as minhas
emoções verdadeiras, desembrulhar-me, ser eu”.
Está é a grande conquista, ser apenas
EU. Reconhecer minhas aptidões, qualidades, desejos e deixar aflorar o ser
real. Ressaltando a importância de acreditar nas possibilidades do querer e da
busca com determinação. Fortalecer-me na crença, que serei capaz de alçar meu
legítimo voo, nas asas da liberdade reconstruindo minha história!!
Claudete de Morais – CRP 12/01167
Doutoranda em psicologia clínica.
Cientista Ivan Izquierdo especialista em memória, considerado um dos mais importantes do mundo em sua área de pesquisa. Lamentavelmente perdemos em 09/02/21 esse grande estudioso, que muito contribuiu para decifrarmos o funcionamento da memória no ser humano. Leia a entrevista dele de 14 de setembro de 2017.
Ivan Izquierdo: “somos aquilo que
decidimos esquecer”
Publicado em 14 de setembro de 2017
É a memória que vai ajudar que
o mesmo mal não nos atinja duas vezes!
O neurocientista Iván Izquierdo
é referência mundial em memória e um dos cientistas mais respeitados do mundo.
Uma de suas obras, “A arte de esquecer”, mostra que cada um de nós é quem é
porque tem suas próprias memórias e aprender a distinguir o que devemos deixar
de lado e o que guardar é uma arte difícil. “É a sua memória que vai ajudar que
o mesmo mal não nos atinja duas vezes”, afirma.
Ao final da leitura da obra, que mostra que esquecer é também
arte, é possível compreender que esquecemos para poder pensar, esquecemos para
não enlouquecer e para poder conviver e sobreviver. Izquierdo defende que o
esquecimento é inevitável e necessário, que precisamos abrir espaço no cérebro
para novas memórias. “Somos também aquilo que decidimos esquecer”, afirma Izquierdo.
Uma entrevista com ele, que no conjunto de sua obra já recebeu mais de 10 mil
citações, sempre é enriquecedora. Dos 17 livros que publicou, 6 são de ficção e
de crônicas. O também contumaz leitor de Jorge Luís Borges afirma que ler é o
melhor exercício para a memória.
Por que esquecemos? Há razões para
justificar o esquecimento?
Esquecemos a maior parte do que
aprendemos. Por exemplo, ninguém se lembra de cada um dos minutos da tarde de
ontem; foram esquecidos e são irrecuperáveis. O principal mecanismo é a falta
de repetição das memórias, a falta de uso das sinapses, as atrofias, como
demonstrou John Eccles (Prêmio Nobel 1963) nos anos 50.
Do desenvolvimento da memória na criança, o
que muda com a idade?
Fundamentalmente o uso da linguagem. Difícil lembrar de
acontecimentos ainda que importantes (aprender a caminhar, falar) anteriores à
idade a partir da qual traduzimos tudo em linguagem (por volta dos 3 anos). A
partir daí tudo continua mais ou menos igual, mecanisticamente, só que cada vez
com maior conteúdo até a extrema velhice, na qual gravamos menos memórias e,
por morte neuronal, perdemos muitas.
Há memórias que queremos guardar, há
memórias que queremos extinguir. Isso é possível?
Sim.
É também possível que isso ocorra de forma
involuntária?
Geralmente ocorre de maneira involuntária.
O que explica pessoas que guardam mais as
memórias negativas ou tristes?
Sempre guardamos mais as memórias tristes ou ruins, por motivos
defensivos. Não queremos que o mesmo mal nos atinja duas vezes. Guardamos mais
as memórias adquiridas com mais alerta emocional. As situações de medo, perigo
ou desgraça costumam ser as de maior carga emocional.
Toda memória envolve emoção?
Sim. No
humano não existem momentos absolutamente não emocionais.
De que forma o uso constante das
novas tecnologias (celulares, facebook, Google…) afeta a memória?
Em geral, aumentam. Poupam nosso cérebro de dedicar muitas
sinapses a fazer memórias, que poderão ser encontradas nos “periféricos”
(celulares, google, etc).
Quais são os maiores fatores de risco para
a memória?
A depressão, o estresse, as doenças neurodegenerativas, o
álcool, outras drogas de abuso.
Muitos já devem ter lhe perguntado, mas que
práticas remetem à boa saúde da memória? Que exercícios podemos fazer
para manter a memória viva?
A leitura é o melhor exercício para praticar a memória. Nenhum
outro chega perto. Os atores e professores, membros das duas profissões em que
mais se lê, costumam ser os que melhor memória tem, até uma idade mais
avançada. Veja Paulo Autran, a Fernanda, Max Von Sydow, Christopher Plummer.
Como explicar que a perda de neurônios, em
idade avançada, não afetou a qualidade dos contos de Jorge Luís Borges ou ele
aprender inglês arcaico, já octogenário? Ou os quadros de Matisse, também em
idade avançada?
A memória começa a se perder por causa da idade geralmente mais
tarde do que os 80 anos, e alguns a perdem mais do que outros.
A memória pode incorporar ficção?
Sim, sem dúvida. Boa parte de nossas memórias são falsas em
parte.
Um de seus livros é “Silêncio, por favor”,
que trata o tema ruído sob várias perspectivas. Os bombardeios de diferentes
tipos de ruído aos quais estamos toda hora sendo submetidos afetam nossa
memória?
Podem afetá-la, mas muito menos do que pensa o grande público.
Borges, Matisse, Verdi, a Rainha Victoria e Deng Zhao-Ping sofreram tanto ruído
como os demais e não perderam a memória.
O que ainda o intriga para descobrir na
seara da memória?
A curiosidade é meu motor principal. Enquanto a tenho, seguirei
intrigado. De momento, ainda falta descobrir muitos mecanismos chaves das
memórias.
Pessoas de mais idade constantemente evocam
memórias da juventude. Elas predominam?
Borges disse que os velhos preferem se lembrar dos tempos da
felicidade, da juventude, em que namoravam, dançavam à noite toda, jogavam
bola, etc., e não dos tempos mais recentes em que os velhos têm mais perdas e
mais problemas de saúde para se lembrar (amigos que morreram, artrite, etc.).
O que o levou ao interesse pelo estudo do
sistema nervoso e da memória?
Os mistérios, a aventura.
Ter Alzheimer algum dia lhe preocupa?
A quem não lhe preocupa?
Lemos que seu pai desenvolveu, muito tarde,
é verdade, o Alzheimer. Como Izquierdo trabalhou a questão e como podemos da
melhor forma interagir com pessoas que sofrem da doença?
Com amor. Com muito amor, lembrando sempre dos bons momentos de
antigamente ou do mesmo dia, e deixando de lado os males, às vezes, tão
dramáticos, da doença atual.
Publicado na
edição 18 da revista Gente que Faz.
Fonte: https://gentequefaz.com/ivan-izquierdo-somos-aquilo-que-decidimos-esquecer/
No azul infinito do mar, reverbera o poder infinito de Deus, fomentando no ser o desejo de amar. Claudete de Morais.




